Confira o conteúdo da palestra realizada no mês de outubro por Dom Julio Endi Akamine




A Vocação cristã na comunidade empresarial


Introdução

O cristão é constituído pela vocação. O chamado de Deus não é um acréscimo extrínseco aos cristãos, mas é constitutivo de sua identidade. O que é o DNA para as nossas características genéticas, com muito mais razão é a vocação para nossa identidade cristã: somos o que somos por causa do chamado de Deus.
Muitas são as vocações: a uns Deus chama para o ministério sacro, a outros para a constituição da família. Há também chamados mais específicos como é o caso das profissões, dos encargos. Podemos considerar o empreendedorismo também como uma forma de concretização do chamado divino.
Vista dessa forma, a atividade empresarial dá um salto qualitativo. Não é somente uma atividade importante de geração de riqueza e de exercício da criatividade. Passa a ser uma maneira de participação na atividade criadora de Deus. De fato, Deus colocou o homem no jardim que Ele plantou para que o guarde e o cultive.
A criação não saiu das mãos de Deus totalmente acabada e finalizada. O mundo e o ser humano não saíram das mãos de Deus acabados; eles não são perfeitos nem imperfeitos. São perfectíveis. Evidentemente, Deus poderia ter criado tudo já acabado, sem a necessidade de um processo de aperfeiçoamento e de mudança. Mas não o fez, e nós não temos como entrar nas intenções do Criador.
É, porém, lícito a nós considerar que Deus quis a cooperação do homem na obra da criação. Ela é uma obra aberta que pode receber uma ulterior perfeição do homem. Aperfeiçoando e humanizando o que o circunda, o próprio ser humano se aperfeiçoa. O mundo assim é para o homem um desafio à sua criatividade. Uma vez que o mundo é limitado e perfectível, o homem pode exercer nele a sua inventividade e ação criadora.
Assim o progresso humano, no senso autêntico da palavra, não contradiz a providência divina. Pelo contrário, o desenvolvimento humano (também o econômico) é suscitado, sustentado, assumido e plenificado pela Providência. O desígnio do Criador para a sua criação, manifestado já desde a origem do mundo, é a perfeição humana, na qual a humanidade colabora com o melhor de si e com todas as suas forças para a sua própria superação oferecida por Cristo no Espírito Santo.
Esse concurso e essa participação comum do homem com Deus não é sinal de Sua fraqueza e sim manifestação máxima da grandeza do Criador. A suma perfeição de Deus consiste exatamente em conceder à sua criatura a capacidade de colaborar com Ele. Por ser uma criatura inteligente e livre, o ser humano é capaz de ser um verdadeiro cooperador na obra criadora de Deus. Assim é também o empresário cristão: ele não somente se ocupa de bens materiais, dinheiro e coisas. Ele se ocupa das pessoas que são o maior bem da empresa.
Participando da ação criadora de Deus, o ser humano faz com que a natureza desenvolva as suas potencialidades e receba uma feição humana. No desígnio do Criador, sem a ação criadora do homem, a natureza nunca chegará à sua perfeição. Por isso, é errada a concepção que entende Deus como um freio ou um obstáculo à liberdade criadora do homem.
 1. Como a Bíblia entende a riqueza e pobreza?

No Antigo Testamento encontramos uma dupla postura em relação aos bens econômicos e a riqueza. Por um lado, há um grande apreço em relação a disponibilidade dos bens materiais considerados necessários para a vida. Por vezes a abundância ― mas não a riqueza e o luxo ― é vista como uma bênção de Deus.
Os bens econômicos e a riqueza não são condenados por si mesmo, mas pelo seu mau uso. A tradição profética estigmatiza as fraudes, a usura, a exploração, as injustiças manifestas, frequentes em relação aos mais pobres (cf. Is 58,3-11; Jr 7,4-7; Os 4,1-2; Am 2,6-7; Mq 2,1-2).
É preciso também reconhecer que a mesma tradição profética vê nos pobres um símbolo da situação do homem diante de Deus; d’Ele provêm todos os bens como dom a ser administrado e a ser partilhado.
Há, portanto, uma pobreza boa que é a pobreza diante de Deus: quando o pobre procura Deus, o Senhor responde; quando grita, Deus o escuta. A pobreza, quando é aceita ou procurada com espírito religioso, predispõem ao reconhecimento e à aceitação da ordem criatural.
A pobreza assume o valor moral quando se manifesta como humilde disponibilidade e abertura para com Deus, confiança n’Ele. Estas atitudes tornam o homem capaz de reconhecer a relatividade dos bens econômicos e dos tratados como dons a serem administrados e partilhados, uma vez que a propriedade é de Deus.
Em contraposição, o «rico» é aquele que repõem a sua confiança nas coisas que possui mais que em Deus, o homem que se faz forte pela obra de suas mãos e que confia somente nesta força.
No NT, Jesus assume toda a tradição do Antigo Testamento também sobre os bens econômicos, sobre a riqueza e sobre a pobreza, conferindo-lhe uma definitiva clareza e plenitude.
Liberto do mal e reintroduzido na comunhão com Deus, o ser humano pode continuar a obra de Jesus, com a ajuda do Seu Espírito: fazer justiça aos pobres, resgatar os oprimidos, consolar os aflitos, buscar ativamente uma nova ordem social, em que se ofereçam adequadas soluções à pobreza material e venham impedidas mais eficazmente as forças que dificultam as tentativas dos mais fracos de se libertarem de uma condição de miséria e de escravidão. Quando isto acontece, o Reino de Deus se faz já presente sobre esta terra, embora não lhe pertença.
À luz da Revelação, a atividade econômica deve ser considerada e desenvolvida como resposta reconhecida à vocação que Deus reserva ao ser humano. Uma boa administração dos dons recebidos (uma boa administração econômica) é obra de justiça para consigo mesmo e para com os outros homens. O que recebemos do Criador deve ser bem utilizado, conservado, acrescido, tal como ensina a parábola dos talentos (cf. Mt 25,14-31; Lc 19,12-27).
A atividade econômica e o progresso material devem ser colocados a serviço do homem e da sociedade; se a eles nos dedicarmos com a fé, a esperança e a caridade dos discípulos de Cristo, a própria economia e o progresso podem ser transformados em lugares de salvação e de santificação; nestes âmbitos também é possível dar expressão a um amor e a uma solidariedade mais que humanas e contribuir para o crescimento de uma humanidade nova, que prefigure o mundo dos últimos tempos.
Jesus sintetiza toda a Revelação pedindo a nós que nos enriquecemos diante de Deus (cf. Lc 12,21): também a atividade econômica e o empreendedorismo são uma forma de enriquecer diante de Deus, quando não trai a sua função de instrumento para o crescimento global do homem e das sociedades, da qualidade humana da vida.
     2. Como devemos administrar os bens deste mundo?

Os bens, ainda que legitimamente possuídos, mantêm sempre uma destinação universal: é imoral toda a forma de acumulação indébita, porque em aberto contraste com a destinação universal consignada por Deus Criador a todos os bens.
O apego ao dinheiro de fato é a raiz de todos os males, pelo seu desejo desenfreado alguns se desviaram da fé (1Tm 6,10).
Os Padres da Igreja insistem sobre a necessidade da conversão e da transformação das consciências dos fiéis, mais que sobre as exigências de mudança das estruturas sociais e políticas de seu tempo, solicitando a quem desempenha uma atividade econômica e possui bens a considerar-se administradores do que Deus lhes confiou.
As riquezas realizam a sua função de serviço ao homem quando destinadas a produzir benefícios para os outros e a sociedade.
As riquezas são um bem que vêm de Deus: quem o possuir, deve usá-lo e fazê-lo circular, de sorte que também os necessitados possam usufruir; o mal está no apego desmedido às riquezas, no desejo de dominá-las.
A riqueza, explica São Basílio, é como a água que flui mais pura da fonte na medida em que dela se haure com mais frequência, mas que apodrece se a fonte permanece inutilizada.
     3. É possível ser ético na economia?

Ainda que a economia e a moral “se regulam, cada uma no seu âmbito, por princípios próprios”, é erro julgar a ordem econômica e a moral tão afastadas e alheias entre si, que de modo nenhum aquela dependa desta.
A relação entre moral e economia é necessária e intrínseca: atividade econômica e comportamento moral se compenetram intimamente. A distinção entre moral e economia não implica uma separação entre os dois âmbitos, mas, ao contrário, uma importante reciprocidade.
Assim como no âmbito moral se devem ter em conta as razões e as exigências da economia, atuando no campo econômico é imperioso abrir-se às instâncias morais. Por que? Porque o ser humano é o autor, o centro e o fim de toda a vida econômico-social.
Dar o justo e devido peso às razões próprias da economia não significa rejeitar como irracional qualquer consideração de ordem metaeconômica, precisamente porque o fim da economia não está na economia mesma, mas na sua destinação humana e social.
A dimensão moral da economia faz tomar como finalidades indivisíveis, nunca separadas e alternativas, a eficiência econômica e a promoção de um desenvolvimento solidário da humanidade.
Junto com uma necessária eficiência na produção de bens é preciso buscar também uma eficiência social da economia. Com outras palavras: é um dever desempenhar de modo eficiente a atividade de produção dos bens, pois do contrário se desperdiçam recursos. Mas não é aceitável um crescimento econômico obtido em detrimento dos seres humanos, de povos inteiros e de grupos sociais, condenados à indigência e à exclusão.
Outro fator que aproxima economia e moral, eficiência de produção e eficiência social é a salvaguarda do protagonismo do ser humano do desenvolvimento da economia. Para que a atividade econômica tenha a categoria de atividade moral, ela deve ter como sujeitos as pessoas e os povos. Todos têm o direito de participar da vida econômica e o dever de contribuir, segundo as próprias capacidades, do progresso do próprio país e de toda a família humana. Assim a atividade econômica se torna um espaço vital de exercício desse protagonismo do ser humano no seu próprio desenvolvimento.
Vivida moralmente, a economia é pois prestação de um serviço recíproco, mediante a produção dos bens e serviços úteis ao crescimento das pessoas, e se torna oportunidade para a pessoa poder viver a solidariedade e a vocação à «comunhão com os outros homens para a qual Deus o criou».
O desenvolvimento não pode ser reduzido a mero processo de acumulação de bens e serviços. Ao contrario, a pura acumulação, ainda que em vista do bem comum, não é uma condição suficiente para realização da autêntica felicidade humana.
     4. Como a Igreja entende a Iniciativa Empreendedora?

A doutrina social da Igreja considera a liberdade da pessoa em campo econômico um valor fundamental e um direito inalienável a ser promovido e tutelado. Todos têm o direito de iniciativa econômica e devem usar legitimamente de seus talentos para contribuir para uma abundância que seja de proveito para todos e para colher os justos frutos de seus esforços.
A iniciativa livre e responsável em campo econômico pode ser definida como um ato que revela a humanidade do homem enquanto sujeito criativo e relacional. Tal iniciativa deve gozar, portanto, de um espaço amplo. O Estado tem a obrigação moral de pôr vínculos estreitos somente em vista das incompatibilidades entre a busca do bem comum e o tipo de atividade econômica iniciada ou as suas modalidades de realização.
A dimensão criativa é um elemento essencial do agir humano, também em campo empresarial, e se manifesta especialmente na aptidão de planejar e de inovar.
Com efeito, a riqueza principal do homem é, em conjunto com a terra, o próprio homem. É a sua inteligência que o leva a descobrir as potencialidades produtivas da terra e as múltiplas modalidades através das quais podem ser satisfeitas as necessidades humanas.
A empresa deve caracterizar-se pela capacidade de servir o bem comum da sociedade mediante a produção de bens e serviços úteis. Além de tal função tipicamente econômica, a empresa cumpre também uma função social, criando oportunidades de encontro, de colaboração, de valorização das capacidades das pessoas envolvidas. Na empresa, portanto, a dimensão econômica é condição para que se possam alcançar objetivos não apenas econômicos, mas também sociais e morais, a perseguir conjuntamente.
A empresa não pode ser considerada apenas como uma “sociedade de capitais”; é simultaneamente uma “sociedade de pessoas”, da qual fazem parte, de modo diverso e com específicas responsabilidades, quer aqueles que fornecem o capital necessário para a sua atividade, quer aqueles que colaboram com o seu trabalho.
     5. É lícito o lucro?

A doutrina social reconhece a justa função do lucro, como primeiro indicador do bom andamento da empresa. Quando a empresa dá lucro, isso significa que os fatores produtivos foram adequadamente usados e as correlativas necessidades humanas devidamente satisfeitas.
Isso não significa o lucro sempre indica que a empresa está servindo adequadamente a sociedade. É possível, por exemplo, que a contabilidade esteja em ordem e simultaneamente os homens, que constituem o patrimônio mais precioso da empresa, sejam humilhados e ofendidos na sua dignidade. É o que acontece quando a empresa está inserida em sistemas sócio-culturais caracterizados pela exploração das pessoas, inclinados a fugir às obrigações de justiça social e a violar os direitos dos trabalhadores.
É indispensável que, no interior da empresa, a legítima busca do lucro se harmonize com a irrenunciável tutela da dignidade das pessoas que, a vário título, atuam na mesma empresa. As duas exigências não estão absolutamente em contraste uma com a outra, pois que, de um lado, não seria realista pensar em garantir o futuro da empresa sem a produção de bens e serviços e sem conseguir lucros que sejam fruto da atividade econômica realizada.
     6. Qual é o papel do empreendedor?

A iniciativa econômica é expressão da inteligência humana e da exigência de responder às necessidades do homem de modo criativo e colaborativo. Na criatividade e na cooperação está inscrita a autêntica concepção da competição empresarial: um cum-petere, ou seja, um buscar junto as soluções mais adequadas para responder do modo mais apropriado às necessidades que passo a passo vêm à tona.
Os papéis do empresário e do dirigente reveste uma importância central do ponto de vista social, porque se colocam no coração daquela rede de liames técnicos, comerciais, financeiros, culturais, que caracterizam a moderna realidade da empresa. Dado que as decisões empresariais produzem, em razão da crescente complexidade da atividade empresarial, uma multiplicidade de efeitos conjuntos de grande relevância não só econômica, mas também social, o exercício das responsabilidades empresariais exige, além de um esforço contínuo de atualização específica, uma constante reflexão sobre as motivações morais que devem guiar as opções pessoais de quem esta investido de tais encargos.
Os empresários e os dirigentes não podem levar em conta exclusivamente o objetivo econômico da empresa, os critérios de eficiência econômica, as exigências do cuidado do «capital» como conjunto dos meios de produção, é também um preciso dever deles o concreto respeito da dignidade humana dos trabalhadores que atuam na empresa. As pessoas, de fato, constituem «o patrimônio mais precioso da empresa, o fator decisivo da produção.
Nas grandes decisões estratégicas e financeiras, de compra ou de venda, de redimensionamento ou fechamento das filiais, na política das fusões, não se pode limitar exclusivamente a critérios de natureza financeira ou comercial.
A doutrina social insiste na necessidade de que o empresário e o dirigente se empenhem em estruturar a atividade profissional nas suas empresas de modo a favorecer a família, especialmente as mães de família no cumprimento das suas funções; respondam, à luz de uma visão integral do homem e do desenvolvimento, à demanda de qualidade «das mercadorias a produzir e a consumir, qualidade dos serviços a ser utilizados, qualidade do ambiente e da vida em geral.

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