Palavra de Fé – Junho de 2021

Eu tive Covid19. Eis o meu relato e o meu testemunho. Em fins de maio, alguns dos seminaristas da casa de formação que dirijo testaram reagentes para esta infecção viral. São todos bastante jovens e saudáveis, mas era inevitável pela convivência próxima, que também eu fosse contaminado, e outros colaboradores também. Cuidei deles nos primeiros dias até que também experimentei sintomas e testei reagente. Ter Covid19 foi para mim uma experiência e acho importante partilhar o que experimentei. 

Primeiro, a insegurança, a incerteza e o medo, diante do dia seguinte; na expectativa dos próximos sintomas. Esta escuridão, no meu ponto de vista, é a parte mais terrível da doença – acorda-se e dorme-se na expectativa do mal-estar seguinte. Em seguida, e ao mesmo tempo, experimentei a incoerência técnico-científica de tratamento. Houve profissionais que me ofereceram toda medicação possível (um prédio para esmagar uma pomba), enquanto outros sugeriram aproveitar a doença e tirar férias, tomando apenas cuidado com a febre, caso ela viesse a aparecer. Detalhe: a febre já está na fase inflamatória da doença, que aparece depois da fase viral – normalmente é nesta fase que perdemos vidas. Esta falta de objetividade técnico-científica, médica e medicamentosa, também gerou muita angústia.

Escolhi um tratamento preventivo, que não vou descrever. Foi minha escolha, conhecendo-me bem a mim mesmo, entre o tudo e o nada que me foram oferecidos. Me cuidei em casa, com a ajuda de amigos e irmãos de fé, que não faltaram trazer-me comida, frutas, sopas, chás, e a doação de remédios, pois de fato, o tratamento é muito caro. Sem contar as inúmeras mensagens diárias perguntando sobre meu estado de recuperação e sintomas. Minha comunidade e família sofreram comigo. Entre o oitavo e o décimo dia de infecção desenvolvi uma pequena pneumonia viral, que acometeu pouco do pulmão, felizmente. Este tratamento é o que estendeu o período de recuperação até agora.

O Covid19 deixa marcas. Ainda não sei exatamente quais serão as minhas, mas estou vivo graças a Deus. O Covid19 é uma doença mortal, e passar por esta enfermidade e sobreviver é um dom e mistério que nos faz repensar a vida, as escolhas e o futuro. Entristece-me ver que nosso mundo, sob o influxo da pandemia, que não termina nunca, está se acostumando à angustia, ao medo e à morte. Este não é o estado de coisas desejado por Deus à humanidade. Jesus veio para trazer a paz ao coração humano, provando que a menor manifestação de amor vence a fome de Deus e a guerra entre as pessoas. Esta pandemia não pode calar o Evangelho de Cristo.

Por isso, quis relatar e testemunhar: senti a presença de Deus ao longo deste tempo de doença, senti o amor dos irmãos e sua solidariedade, senti desejo do Céu e desejo de viver, senti a presença de Nossa Senhora junto de minha cama todas as noites. Tenho certeza de que o Céu estava comigo nesta batalha. Com humildade atribuo a São Miguel Arcanjo, e aos meus antepassados falecidos em glória eterna, a recuperação dos meus pulmões. E sou grato à intercessão de Santo Antônio de Santana Galvão, cujas pílulas e oração me acompanharam desde a primeira fase da doença. Mesmo cansado fisicamente e fatigado, celebrei a Santa Missa, pelos falecidos desta pandemia e por todos os enfermos, de número hoje incalculável, nos hospitais e nas casas, com condições de tratamento e sem esta possibilidade; e experimentei ao final de cada Missa celebrada Deus me levantando.

Não nos acostumemos à angústia, ao medo e à morte. Elas não vêm de Deus. Procuremos, na solidariedade, estar próximos dos enfermos de Covid19, com segurança evidentemente. Não estamos em guerra, não podemos aceitar este tipo de morte como digna. A única morte digna para o ser humano, é a morte batismal na Cruz de Cristo, nela somos sepultados para a vida eterna. Termino apenas a dizer: obrigado, a Deus e todos e todas. Que minha vida e ministério sejam sinal desta nova oportunidade de salvação.

Padre Rodolfo Gasparini Morbiolo
Orientador Espiritual ADCE Sorocaba/SP – Brasil.

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